01 Feb
Cascavel no centro do agro: mecanização cresce, mas dependência de emendas acende alerta para o futuro

A forma como o dinheiro público vem sendo direcionado para o campo ajuda a explicar boa parte do debate atual sobre mecanização agrícola no Brasil. Em 2025, a compra de máquinas agrícolas e veículos liderou a liberação de recursos por meio de emendas parlamentares, concentrando os maiores valores empenhados no Orçamento da União. Somente para máquinas e implementos agrícolas, os empenhos ultrapassaram a casa de R$ 1 bilhão, superando áreas sensíveis como infraestrutura rural estruturante e políticas de longo prazo. Apesar do volume expressivo autorizado, a execução efetiva — ou seja, o dinheiro que de fato chegou na ponta — foi significativamente menor, revelando um descompasso entre a decisão política e a entrega real no campo. É a partir desse cenário que se impõe uma reflexão mais ampla: o que essa escolha diz sobre o modelo de financiamento da mecanização agrícola no Brasil e quais riscos ela projeta para o futuro do setor?A liderança da compra de máquinas agrícolas entre os recursos liberados por emendas parlamentares em 2025 não é um fato isolado. Ela se conecta a uma trajetória de mais de duas décadas de mecanização no campo brasileiro — e, ao mesmo tempo, expõe riscos estruturais que podem comprometer a eficiência do agronegócio no médio e longo prazo.Com mais de R$ 1 bilhão empenhado apenas para a aquisição de máquinas agrícolas no último ano, o dado reforça algo já conhecido: mecanizar é prioridade. A dúvida que cresce, porém, é como e com que critério esses investimentos estão sendo feitos.Segundo o professor de Ciência Política da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Marco Antônio Carvalho Teixeira, as aplicações para máquinas e equipamentos agrícolas, além dos repasses a instituições de caráter assistencial, cultural e educacional, mostram uma estratégia eleitoral dos parlamentares, onde soluções de curto prazo para os municípios são privilegiadas em busca de consolidar um eleitorado para as próximas eleições.“Você entrega isso direto para o eleitor, para o cliente, para o cidadão, para a organização, chame como quiser. Obviamente, isso consolida ainda mais a lealdade eleitoral de quem está recebendo para com quem doa, e isso deixa na posição de quem doa como sendo alguém indispensável de permanecer no sistema político, porque vai ser o parlamentar que vai continuar escoando o recurso que pessoas e organizações querem”, disse.

20 anos de mecanização: do trator à tecnologia

Desde o início dos anos 2000, o Brasil acelerou a mecanização agrícola impulsionado por três fatores principais:

  • expansão do crédito rural,
  • crescimento da produção de grãos,
  • necessidade de ganhos de produtividade.

Na primeira fase, o foco esteve na substituição do trabalho manual por tratores, plantadeiras e colheitadeiras. Já na última década, o avanço foi tecnológico: agricultura de precisão, máquinas conectadas, automação e gestão por dados passaram a fazer parte da rotina do produtor.Esse movimento consolidou o país como um dos maiores mercados de máquinas agrícolas do mundo e levou o setor a faturamentos históricos. O problema é que, nos últimos anos, parte relevante dessas aquisições passou a depender menos do planejamento produtivo e mais da intermediação política.

Quando a emenda substitui a política pública

O financiamento via emendas parlamentares traz um risco central: emenda não é política pública.Ela nasce para atender bases eleitorais, não para estruturar cadeias produtivas. Quando a mecanização agrícola depende excessivamente desse mecanismo, surgem distorções recorrentes:

  • máquinas compradas sem estudo técnico;
  • equipamentos incompatíveis com a realidade local;
  • tratores parados por falta de operador ou manutenção;
  • investimentos concentrados em anos eleitorais.

Órgãos como o Tribunal de Contas da União e a Controladoria-Geral da União já apontaram, ao longo dos anos, problemas desse tipo em diversos estados.No papel, o recurso existe. No campo, a produtividade nem sempre acompanha.

O risco da dependência política

Outro efeito colateral pouco discutido é a instabilidade. Emendas variam conforme:

  • articulações no Congresso Nacional,
  • interesses políticos do momento,
  • negociações com o governo federal.

Isso cria ciclos artificiais: excesso de compras em um ano, retração no seguinte. Para a indústria, cooperativas e produtores, o resultado é incerteza, encarecimento e dificuldade de planejamento.Além disso, municípios que recebem máquinas via emenda passam a concorrer com produtores que financiam seus equipamentos no mercado, criando distorções econômicas e reduzindo o estímulo ao investimento privado local.

Cascavel como contraponto: técnica, mercado e planejamento

É nesse cenário que Cascavel ganha protagonismo nacional. Neste mês de fevereiro, a cidade sedia mais uma edição do Show Rural Coopavel, uma das maiores feiras do agronegócio da América Latina. O evento representa exatamente o oposto da lógica das emendas:

  • escolha baseada em comparação técnica,
  • acesso a crédito estruturado,
  • decisões orientadas por produtividade,
  • foco em tecnologia, eficiência e sustentabilidade.

Ao longo de décadas, o Show Rural ajudou a moldar o padrão de mecanização do Oeste do Paraná, conectando produtores, indústria, cooperativas e pesquisa. Não é apenas uma feira: é um termômetro do rumo que o agro brasileiro pretende seguir.

O que a história indica para o futuro

Se a mecanização continuar avançando sem planejamento e excessivamente dependente de emendas, o Brasil corre o risco de:

  • desperdiçar recursos públicos,
  • criar parques de máquinas subutilizados,
  • travar a inovação tecnológica real,
  • politizar um setor que precisa de previsibilidade.

Por outro lado, se as emendas forem usadas de forma complementar, integradas a políticas de crédito, assistência técnica e planejamento regional, podem ter papel positivo — mas nunca central.A mecanização agrícola é vital para o Brasil, para o Paraná e para Cascavel. A história dos últimos 20 anos mostra isso com clareza. Mas também ensina uma lição dura: máquina sem estratégia vira custo, não investimento.Enquanto o Show Rural aponta caminhos baseados em técnica, mercado e inovação, o uso indiscriminado de emendas parlamentares acende um alerta. O futuro do agro passa menos por palco político e mais por decisões bem fundamentadas — algo que o campo, quando bem ouvido, sempre soube fazer.

Comentários
* O e-mail não será publicado no site.